segunda-feira, 23 de novembro de 2015

A capa de gordura e o diário de Analice

A capa de gordura e o diário de Analice

A massagista esfregava com força a barriga de Analice e, foi nesse momento que ela teve um insight: “tenho uma capa de gordura, igual a dos presuntos”. Na mercearia, quando alguém pede 200 gramas de presunto, a primeira pergunta é: gordo ou magro? Em alguns lugares a pergunta varia para: com ou sem capa de gordura? Como é de praxe cuidar do colesterol, a maioria responde: magro ou: sem capa de gordura.
Pois é, voltando à massagem, Analice conclui: “sou um presunto com capa de gordura, e não há nada que retrate melhor meu estado, minha aparência física”.
Voltou para casa assustada com a descoberta, pisando duro na esperança de ajudar a derreter a capa. Mas será que ela não vira isso antes? Via e não via. Não via porque não queria ver. Se visse, teria de pensar em uma solução, uma atitude. E atitude é a última coisa que uma pessoa que já deixou a capa de gordura tomar conta de todos os espaços quer tomar.
Via como? No espelho? Pois é, em sua casa só havia espelho no banheiro, e ela estava adiando sempre a compra de um espelho de corpo inteiro. É típico.
Mas via. Nas roupas apertadas, nas vitrines com roupas lindas que não cabiam em seu corpo, na dificuldade de abaixar, levantar etc. E no colesterol: o dobro do normal. Mais triglicérides alterado e a taxa de glicemia subindo a cada exame de laboratório.
Bem, ela estava tratando uma depressão também, que não acabava nunca e o médico mudando a medicação e ela vivendo na gangorra. Melhorava um pouco, piorava, melhorava, piorava.
Não interessam aqui os hipotéticos motivos que levaram à depressão e sim, o que Analice estava fazendo com a própria vida escondida na capa de gordura. Depressão? É um processo químico, todos sabem, todos lêem sobre isso, é a questão da serotonina e outras coisas mais, o cérebro não produz..
 Sabe o que é também? O barranco. É, o barranco que ela encontrou para se encostar, justificando sua afasia pelas decepções, perdas, mortes na  família, culpas...coitada de Analice, que dó!
Filhos, perdas, trabalho, traumas, estresses... Isso acontece. O beco vai se estreitando.
Um dia, Analice  sentiu-se como se já tivesse morrido e fosse um fantasma, uma representação de si mesma,  vagando pela casa em câmara lenta, abrindo e-mails sem ler, deixando a pilha de jornais crescer sem nem mesmo ver as manchetes.  Não ria mais. E ela adorava rir, de qualquer coisa, até de si mesma. Aonde foi parar o som das suas gargalhadas?

Um fantasma com capa de gordura. Nesse dia, do auto diagnóstico, resolveu fazer um inventário de sua vida, desconstruir a mulher ( mulher?) esquisita na qual se transformara. Um diário. Isso, sim, um diário ajuda. Escrever sem medo, sem censura, só para si, para ninguém mais ler. Já!

O diário de Analice

Domingo, 16 de outubro

“Começou hoje o horário de verão e nesse primeiro dia parece que as cenas ficam um pouco mais embaçadas. Acordei às 8h, o que ontem seria às 7. Lembrei a música que Elis gravou: “Ontem de manhã quando acordei, olhei a vida e me espantei, eu tenho mais de  vinte anos... eu tenho mais de mil perguntas sem respostas... estou ligada num futuro blue...”
É, no caso, tenho muito mais de 20 anos. Nunca, nunca pensei que teria essa idade. O estranho é que eu não sei o que é isso. É bom ou ruim?
No meu caso acho que é ruim porque as pessoas da minha  idade costumam já não terem mais mil perguntas sem resposta, que já encontraram um lugar na vida, confortável.. Ou não. Minha referência são as mulheres que encontro no elevador do prédio onde moro. Parecem satisfeitas.
Mas, o caso aqui sou eu. Faltam quarenta minutos para a uma da tarde , é domingo e eu ainda estou de camisola. Meu filho mais novo me ligou convidando para almoçar ( para aumentar a capa de gordura). Normalmente faço os meus famosos almoços de domingo e eles ( a família dele) almoçam aqui: Cristina, a mulher, Adriano de 6 anos e Beatriz, de 12. Depois falo sobre eles. Ou não falo, pois  acho que eles não têm nada a ver com minha capa de gordura. Meu filho mais velho não mora aqui na cidade. Mas hoje, apesar de ser domingo, ninguém vem almoçar aqui em casa. Mesmo assim, na geladeira tem salada de grão de bico com muzzarela, ovos, presunto ( ai, presunto!!), azeite, bem calórica. E arroz de forno, lingüiça acebolada, que sobrou de ontem e um bolo musse de chocolate coberto com chantilly. As louças estão lá na pia, desde ontem. Eu estava sem coragem de lavar. Acontece de vez em quando. É a capa de gordura que pesa.


22 de março

Passei muito tempo sem escrever nada. Cinco meses. E o que eu fiz para melhorar nesses cinco meses... Nada.  Minha situação piorou. Desisti de escrever meu diário, passou o Natal, o Ano Novo, o Carnaval, agora vem a Páscoa. É que essas datas são traiçoeiras, as mesas são fartas e todos dizem: - Come, come, só um pouquinho, de vez em quando não faz mal... E lá vai mais um pedaço de pernil com farofa, alimentando minhas células rechonchudas e famintas, devoradoras de mim, parasitas invisíveis de olhos atentos e bocas abertas.
Todos pensam que estou fazendo dieta, ou penso que pensam, pois também penso: pois o armário da cozinha está cheio de shakes de morango, chocolate e baunilha. Na porta da geladeira, colei o papel com a dieta de 1200 calorias, composta de alimentos que custam uma fortuna. Mas, dentro da geladeira, tem sim, um pote de doce de leite que eu “deixo lá só para as visitas”... posso até comer uma colher daquela dádiva de vez em quando, mas só mesmo de vez em quando.  Sim, fui ao médico, esqueci de dizer, e ele me olhou sem piedade do alto de sua dignidade de homem magro, daqueles que correm cinco quilômetros de manhã, e no café, comem uma fatiazinha de mamão, duas torradas secas com ¼ de copo de leite desnatado e meia maçã. Acho que à tardinha, depois de ver tantos índices de massa corporal acima de 35, horrorizado, corre para a quadra de tênis e recusa qualquer convite para o happy hour com os colegas. Como os magros são esnobes!
Por isso tudo que eu acho minha situação pior que no ano passado. Estou relativamente fazendo a dieta e continuo, digamos, acima do peso. Agora, tenho provas de que a capa de gordura não é culpa minha. Minha fruteira está repleta de maçãs, laranjas e abacaxis, embora eu prefira uma manga bem madura e meio abacate com limão e açúcar.
Continuo com a capa de gordura, mais grossa ainda. Parece que ela está se tornando mais sólida. Mas, algo me deu um alento: li no jornal que uma psicóloga americana ( os americanos são experts, até viciados, em pesquisa desse tipo, embora estejam cada vez mais obesos) que a postura certa pode nos tornar poderosos e capazes de atingir nosso objetivo.  Postura de poder: ficar alguns minutos todos os dias parado, de pernas abertas, com os braços levantados e o corpo todo esticado. Já comecei e não é que me senti melhor? Me senti magra. E passei pelo porteiro com o peito estufado... ele me olhou com mais respeito.


23 de abril

Dizem que há males que vêm para bem. E que é preciso estar atento às oportunidades que a vida nos oferece. E hoje aconteceu algo que, penso, estava reservado para mim, para resolver aquele problema, o da capa de gordura, do presunto gordo.  Não foi nenhum nutricionista ou endócrino, dieta milagrosa que promete secar cinco quilos por semana. Foi o velório da minha prima Ondina. Pode parecer estranho, macabro até, mas foi lá, na despedida dela, em meio às lagrimas e lamentos da família e dos amigos que se deu um processo inexplicável, uma reviravolta em meu cérebro. Explico: Ondina também era portadora de uma suntuosa capa de gordura. Depois da oração pedindo paz para sua alma lá no céu, quatro membros da família, todos  homens fortes se postaram respeitosamente para carregarem o caixão. E foi aí que Ondina, lá do outro plano, deve ter morrido de vergonha. Os homens fortes só conseguiram carregar por uns cinco metros e, suando, esbaforidos, colocaram o caixão no chão. Outros quatro os substituíram por mais alguns metros e assim foi, trocando de mãos em mãos, que conseguiram chegar à sepultura.
Fiquei de longe, olhando constrangida a cena. E decidi, mas decidi mesmo, com toda minha força: Eu não quero e não vou passar por esse constrangimento. Vou morrer magra, sem capa de gordura.
Fui para casa e bani do armário e da geladeira todos os meus inimigos. Estufei o peito, contraí a barriga e me deliciei com duas colheres de arroz integral, meio bife grelhado, meio prato de salada de alface. Ah! E ainda comi sobremesa: meia maçã assada com canela. Sem açúcar. Tudo meio, metade disso, metade daquilo, pratinho de sobremesa, quem sabe assim, me transformo em meia pessoa, já que sinto o  equivalente a outro corpo colado ao meu, que carrego cansativamente aonde quer que eu vá. OH Deus, tira esse corpo de mim que ele não me pertence... quer dizer, não pertencia. Ele foi se formando aos poucos, se apegando a mim e eu, idiota, ao invés de perceber que era um intruso querendo fazer parte de minha vida, fui alimentando sua bocarra exigente até ele tornar-se um adulto, um companheiro incômodo enfiado em minhas roupas cada vez mais largas.

12 de dezembro

Nove meses comendo pela metade, postura ensinada pela pesquisadora americana, caminhada ofegante, recusando convites para aniversários, casamentos, batizados, happy hour, churrasquinho na lage – não, não tenho lage – drenagem linfática, litros de água, chá de ibisco, chia dissolvida na água, suco de abacaxi com gengibre, abobrinha grelhada...... Nove meses: uma gestação. Lentamente fui me desfazendo dos laços com aquela outra pessoa – aquela envolta na capa de gordura – a do presunto, lembram?. Falava com ela todos os dias argumentando que nossa relação deveria ter um fim, pois nem todos os casamentos duram para sempre e estava na hora de cada uma seguir o seu caminho. Não foi fácil, podem crer. Desapegar é uma das virtudes mais complicadas que existem. Mas, parece que ela – a outra pessoa – compreendeu e está indo embora devagar, um tanto ofendida, reconheço, porque não é fácil ser descartado, assim, depois de tanto tempo de companheirismo. Já juntou quase todos os seus pertences e disse que prefere não deixar nenhuma lembrança. Vá em paz, desejo com fervor.

Nove meses e estou pronta para dar à luz não propriamente um grissini, mas um peito de peru.. ligth. Claro que falta um pouco para eu usar aquele vestido tubinho adormecido no meu guarda-roupa, o maiô engana-mamãe e um cinto largo marcando a cintura. Já é alguma coisa, né?., desde que eu continue sempre alerta contra os inimigos, pois eles nos espreitam sempre. E um deles está chegando... chegando... chegando: a ceia de Natal com seu pernil assado, lombo recheado, tortas de nozes, de chocolate, rabanadas... ai, Dê-me forças, Senhor!

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