Carta a minha mãe
“Foi preciso um percurso
longo para entender que você é uma mulher como eu, com sentimentos e dores
ocultas em seu ventre, com pedaços de histórias desencontradas presas na parede
das válvulas de seu coração, e solitária, solitária em seus respiros longos
de sonhos não realizados e de saudade de
coisas que nunca fez, mas que, em sua alma, como aos 15 anos, ainda sobrevive o
desejo de fazer.
Seu corpo me comove. Sua pele lisa, macia, frágil exposta às mãos
de outros, na dependência dos menores gestos, das menores necessidades de
alimento e de excrescências.
De repente eu te vi como não
pudera ver até então, ensimesmada em meus próprios e tolos questionamentos. E
me vi também. Me surpreendi com a capacidade que eu não sabia possuir de me
dedicar a você em sua despedida arrastada da vida, marcada pelos sulcos da dor,
lutando bravamente por mais um ano de existência, um mês, uma semana, um dia. E
entendi que a vida se passa mesmo um atmo, e que temos pouco tempo para ver
tantas coisas lindas, tantas flores amarelas, brancas e roxas nos ipês que
circundam nosso caminho, para sentar e ouvir o outro de coração sincero – o
filho, o amigo, a criança, o estranho que puxa conversa; para fazer um
chocolate quente com canela nas noites de frio e sorver cada gole e ouvir o
prazer que isso pode nos dar; para ler tantos livros que clamam por serem
abertos, solitários e sizudos na estante da sala; para beijar e abraçar as
pessoas que amamos e que talvez nos amem; de
telefonar para os amigos distantes só para dizer que estava com
saudade... de rabiscar um desenho não sendo artista, de cantar sem ser cantora,
dançar um bolero com sapatos de bailarina de tango e saia rodada; de ousar uma
nova cor de batom; de escrever os poemas que dormem em nosso misterioso
interior; de contar a verdade para o analista; de convidar os irmãos para
almoçar no domingo; de dizer aos filhos que eles devem ser, mais que doutores,
felizes; de sentar no sofá só para rever as fotografias; de acreditar mais nas
pessoas. Pouco tempo. Como medir o tempo?.
Mãe, em sua fala arrastada e
quase incompreensível, você tem me mostrado que é difícil demais se despedir
deste mundo, como se tivéssemos sempre coisas a fazer, como se tivéssemos medo
da própria ausência neste pedaço de espaço da casa e do coração das pessoas.
Seu olhar vagueia por mundos
insondáveis, mergulhada em pensamentos
secretos como se bordasse uma tela e não
pudesse se distrair para não deixar
nenhum pontinho torto no traçado de uma Santa Ceia ou de um lindo girassol.
Agora não pode mais falar., mas sei que está lembrando... O que você está
lembrando mãe?
Quando você dorme, sua
respiração quase para e fico ao seu lado esperando um movimento de seu
diafragma, e só então fico tranqüila. Mas sei que você está prestes a ir
embora. Quanto tempo? Um mês, semanas, dias?
Não quero ficar sem você.
Quando chego bem perto, você consegue passar a mão em meu rosto e, Deus do céu,
que benção, que contato mais doce. Como eu pude não perceber isso antes, em
minha juventude? Por que nos afastamos embora estivéssemos tão perto? Fui eu?
Foi você? Foi minha arrogância, a cegueira e a prepotência da juventude? Agora
sou sua mãe. Mamãe!, mamãe,... você me chama quando consegue falar ou
balbuciar, e seus olhos se iluminam quando me vê. Que luz!
Me dói saber que você sabe
estar perto do fim, que percebe os vultos da morte espreitando nos cantos do
quarto e nos olhares que te rodeiam.
Mas tenho certeza: sei que
você sente meu amor, na hora do banho, na cama, quando lavo seus cabelos e me
agradece com os olhos, quando passo creme em seu corpo, faço seus curativos, visto
sua camisola cheirosa, macia, de cambraia bem fininha para não ferir sua pele e
ajeito os travesseiros em volta de seu corpo.
Parece que quer me falar, mas
o quê? Acho que quer falar do que
aconteceu entre uma ponta e outra de sua existência nesse planeta. Acho que sou
eu que quero falar para mim mesma sobre a morte, essa morte que já começa a me
incomodar, assistindo todos os dias suas mortes diárias, me dizendo que todos
nós também morremos a cada dia.
É assim. Lutamos contra a
morte, mas ela tem olhos precisos, nos defendemos, mas todos os dias corremos o
risco de encontrá-la: acidental, natural, premeditada, provocada, assassinada.
O que faremos hoje para não
morrer, ou para esquecer que ela não tem sossego, para não pensar nesse destino
cruel a que somos submetidos sem saber nem por quem. Ela passa por nós, caminha
pelas ruas, espreita pelas janelas atrás de vidraças, sobe escadas, obstinada,
pois tem de cumprir seu papel de cerrar a cortina do último ato – e cumpre,
como um oficial de justiça entregando uma intimação.: “ Não está em casa? Volto
mais tarde”.
E o que procuramos para
suportar essa verdade, o peso, o medo, a incerteza do dia final? Renascer,
rezar, terapia, massagens, viagens, plásticas, dietas, compras, festas,
fotografias.. Vamos nos distrair, rir, contar piadas, jogar baralho, comprar
roupas novas, pintar os cabelos, as unhas, carro novo, preencher os buracos...
quanta coisa podemos fazer até a morte chegar, nos desviar dos agentes
silenciosos, os capangas da morte, que vêm atirar a rede: tumores, colesterol,
açúcar no sangue, de mais ou de menos, artérias entupidas, coágulos no cérebro
e outros inimigos, que podemos ser nós mesmos.
O que você está lembrando,
mãe? As imagens vão e voltam para você, eu sei, passam na parede do quarto como
slides desfocados. Como eu queria ouvir de novo todas as histórias que você me
contava, ao longo da vida, de sua infância e juventude... Nessas horas,
ficávamos ligadas e eu imaginando os cenários, as pessoas, as roupas. Por que
não aproveitei melhor aqueles momentos, por que não me agarrava a você num
abraço apertado?”
Nenhum comentário:
Postar um comentário