segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Carta para minha mãe


Carta a minha mãe

“Foi preciso um percurso longo para entender que você é uma mulher como eu, com sentimentos e dores ocultas em seu ventre, com pedaços de histórias desencontradas presas na parede das válvulas de seu coração, e solitária, solitária em seus respiros longos de  sonhos não realizados e de saudade de coisas que nunca fez, mas que, em sua alma, como aos 15 anos, ainda sobrevive o desejo de fazer.
Seu corpo me comove.  Sua pele lisa, macia, frágil exposta às mãos de outros, na dependência dos menores gestos, das menores necessidades de alimento e de excrescências.
De repente eu te vi como não pudera ver até então, ensimesmada em meus próprios e tolos questionamentos. E me vi também. Me surpreendi com a capacidade que eu não sabia possuir de me dedicar a você em sua despedida arrastada da vida, marcada pelos sulcos da dor, lutando bravamente por mais um ano de existência, um mês, uma semana, um dia. E entendi que a vida se passa mesmo um atmo, e que temos pouco tempo para ver tantas coisas lindas, tantas flores amarelas, brancas e roxas nos ipês que circundam nosso caminho, para sentar e ouvir o outro de coração sincero – o filho, o amigo, a criança, o estranho que puxa conversa; para fazer um chocolate quente com canela nas noites de frio e sorver cada gole e ouvir o prazer que isso pode nos dar; para ler tantos livros que clamam por serem abertos, solitários e sizudos na estante da sala; para beijar e abraçar as pessoas que amamos e que talvez nos amem; de  telefonar para os amigos distantes só para dizer que estava com saudade... de rabiscar um desenho não sendo artista, de cantar sem ser cantora, dançar um bolero com sapatos de bailarina de tango e saia rodada; de ousar uma nova cor de batom; de escrever os poemas que dormem em nosso misterioso interior; de contar a verdade para o analista; de convidar os irmãos para almoçar no domingo; de dizer aos filhos que eles devem ser, mais que doutores, felizes; de sentar no sofá só para rever as fotografias; de acreditar mais nas pessoas. Pouco tempo. Como medir o tempo?.
Mãe, em sua fala arrastada e quase incompreensível, você tem me mostrado que é difícil demais se despedir deste mundo, como se tivéssemos sempre coisas a fazer, como se tivéssemos medo da própria ausência neste pedaço de espaço da casa e do coração das pessoas.
Seu olhar vagueia por mundos insondáveis, mergulhada em  pensamentos secretos  como se bordasse uma tela e não pudesse  se distrair para não deixar nenhum pontinho torto no traçado de uma Santa Ceia ou de um lindo girassol. Agora não pode mais falar., mas sei que está lembrando... O que você está lembrando mãe?
Quando você dorme, sua respiração quase para e fico ao seu lado esperando um movimento de seu diafragma, e só então fico tranqüila. Mas sei que você está prestes a ir embora. Quanto tempo? Um mês, semanas, dias?
Não quero ficar sem você. Quando chego bem perto, você consegue passar a mão em meu rosto e, Deus do céu, que benção, que contato mais doce. Como eu pude não perceber isso antes, em minha juventude? Por que nos afastamos embora estivéssemos tão perto? Fui eu? Foi você? Foi minha arrogância, a cegueira e a prepotência da juventude? Agora sou sua mãe. Mamãe!, mamãe,... você me chama quando consegue falar ou balbuciar, e seus olhos se iluminam quando me vê. Que luz!
Me dói saber que você sabe estar perto do fim, que percebe os vultos da morte espreitando nos cantos do quarto e nos olhares que te rodeiam.
Mas tenho certeza: sei que você sente meu amor, na hora do banho, na cama, quando lavo seus cabelos e me agradece com os olhos, quando passo creme em seu corpo, faço seus curativos, visto sua camisola cheirosa, macia, de cambraia bem fininha para não ferir sua pele e ajeito os travesseiros em volta de seu corpo.
Parece que quer me falar, mas o quê?  Acho que quer falar do que aconteceu entre uma ponta e outra de sua existência nesse planeta. Acho que sou eu que quero falar para mim mesma sobre a morte, essa morte que já começa a me incomodar, assistindo todos os dias suas mortes diárias, me dizendo que todos nós também morremos a cada dia.
É assim. Lutamos contra a morte, mas ela tem olhos precisos, nos defendemos, mas todos os dias corremos o risco de encontrá-la: acidental, natural, premeditada, provocada, assassinada.
O que faremos hoje para não morrer, ou para esquecer que ela não tem sossego, para não pensar nesse destino cruel a que somos submetidos sem saber nem por quem. Ela passa por nós, caminha pelas ruas, espreita pelas janelas atrás de vidraças, sobe escadas, obstinada, pois tem de cumprir seu papel de cerrar a cortina do último ato – e cumpre, como um oficial de justiça entregando uma intimação.: “ Não está em casa? Volto mais tarde”.
E o que procuramos para suportar essa verdade, o peso, o medo, a incerteza do dia final? Renascer, rezar, terapia, massagens, viagens, plásticas, dietas, compras, festas, fotografias.. Vamos nos distrair, rir, contar piadas, jogar baralho, comprar roupas novas, pintar os cabelos, as unhas, carro novo, preencher os buracos... quanta coisa podemos fazer até a morte chegar, nos desviar dos agentes silenciosos, os capangas da morte, que vêm atirar a rede: tumores, colesterol, açúcar no sangue, de mais ou de menos, artérias entupidas, coágulos no cérebro e outros inimigos, que podemos ser nós mesmos.

O que você está lembrando, mãe? As imagens vão e voltam para você, eu sei, passam na parede do quarto como slides desfocados. Como eu queria ouvir de novo todas as histórias que você me contava, ao longo da vida, de sua infância e juventude... Nessas horas, ficávamos ligadas e eu imaginando os cenários, as pessoas, as roupas. Por que não aproveitei melhor aqueles momentos, por que não me agarrava a você num abraço apertado?”

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